
(Parte 1 de 3)
Essa foi uma das perguntas que recebi recentemente de um seguidor e ela é mais comum (e mais incômoda) do que parece.
O Erik Alves fez o seguinte comentário neste post aqui:
“O que observo com frequência é que o Capex de um projeto vai sempre aumentando (e muito) quando passa de FEL 1 para FEL 2, de FEL 2 para FEL 3 e durante a implantação, ocasionando frequentes estouros do Capex aprovado. O percentual de imprecisão em cada FEL, que é maior no FEL 1, não deveria se converter em escopo mais conhecido ao longo do FEL, mas sem aumentar tanto o Capex total?”
São perguntas como essa que nos obrigam a sair das respostas rápidas das redes sociais e nos ajudam a pensar mais profundamente nas causas dos problemas, para podermos agir de forma eficaz.
Quando li o comentário, minha resposta imediata foi: isso não cabe em um post. Precisava de um artigo, ou melhor, de uma série. E é exatamente isso que começa hoje.
Onde está o “erro” nas estimativas de Capex?
Não temos práticas consolidadas, amplamente difundidas por entidades como o PMI (Project Management Institute), CII (Construction Industry Institute) e a AACE (Association for the Advancement of Cost Engineering)?
Essas práticas estariam erradas? Ou somos incapazes de prever o custo dos nossos projetos?
A resposta curta é: as práticas são robustas, o problema está em decisões sob incerteza, escopo incompleto, pressões de viabilidade e governanças permissivas, na maioria dos casos.
À medida que o projeto amadurece, o custo real aparece, e o Capex “sobe”.
Não porque alguém errou a matemática, mas porque a realidade começa a ser revelada.
Este é um tema complexo, e não cabe em poucas linhas. Ainda assim, vou organizar aqui (com base em experiência prática e estudos) os fatores mais recorrentes que explicam por que o Capex aprovado frequentemente é ultrapassado.
Vou seguir uma lógica cronológica, acompanhando a cadeia de valor de um projeto. Na prática, sabemos que muitos fatores se sobrepõem e geram efeitos combinados, mas essa estrutura ajuda a enxergar o problema com mais clareza.
Um aviso importante: estamos acostumados a consumir respostas em 30 ou 60 segundos. Infelizmente, não dá para tratar um tema complexo como este de forma simplista. Por isso, este conteúdo virou uma série de 3 newsletters.
Separe alguns minutos para a leitura e, principalmente, use os comentários: ficarei feliz de saber onde eu errei, se você discorda, o que eu esqueci e o que não faz sentido.
Combinado? Afinal, toda essa série foi motivada por um (ótimo) comentário.
FEL 1: o início – poucas informações e muitas expectativas
Na fase de Business Case, ou na Avaliação de Viabilidade inicial, temos clareza sobre o porquê do empreendimento, mas informações extremamente limitadas do ponto de vista da Engenharia, estudos de campo, questões ambientais, fundiárias e operacionais.
Os estudos técnicos ainda não começaram ou, quando existem, ainda não há profundidade para termos domínio sobre todo o escopo e todos os custos.
Nessa etapa, buscamos valores:
- por referência,
- por projetos similares,
- por fatores de capacidade.
Isso é adequado para a fase, desde que a organização trate o número como faixa, e não como uma verdade absoluta.
Os problemas mais frequentes no FEL 1 são:
- Falta de envolvimento de todos stakeholders necessários: cada área (Engenharia, Planejamento, Capex, Operações, Manutenção, Logística, Meio Ambiente, Jurídico, Suprimentos, Segurança, Qualidade, …) traz requisitos que, se ignorados, aparecerão mais tarde como escopo adicional e, consequentemente, custo.
- Pouco tempo para estudos: o FEL 1 costuma ser visto como “rápido e simples”. Com a urgência que sempre ronda os Executivos nos mais altos escalões, a tendência é que várias etapas sejam ignoradas nessa fase, buscando-se chegar “no número” (custo do projeto) que será usado na planilha mágica que calcula a viabilidade do empreendimento;
- Falta de visão técnica: uma estimativa nessa fase é classificada como Classe 5 (AACE), ou seja, pode variar de -50% a +100% do valor estimado (não é tão simples assim, mas depois voltaremos a esses ‘ranges’). Porém, no mundo corporativo, existe sempre a busca ‘pelo número’, ou seja, o valor exato da estimativa, que se assume como confiável e imutável durante todo o projeto. É preciso entender que toda estimativa possui uma faixa de variação – não apenas possível, como esperada;
- Contingência inexistente ou artificialmente reduzida: no FEL 1, a contingência deveria ser bastante elevada (quanto? Depende de muitos fatores. Mas certamente MUITO acima de 20-30%, talvez próximo a 50%!). Em quais ambientes de negócio isso é considerado aceitável? Ah, e não esqueça que a Contingência faz parte da estimativa, e está incluída ‘no número’. A faixa de variação esperada da estimativa não é a contingência!
- Pressão para caber no número: quando o projeto só é viável até certo limite de Capex, surge a pressão para “ajustar” os números. Ambientes punitivos e executivos pouco abertos ao diálogo empurram as equipes para decisões cegas.
- Ausência de um portão rigoroso: sem desafio às premissas, sem análise crítica independente e sem accountability, o projeto segue adiante sem a maturidade necessária, acumulando riscos que se materializam mais tarde em custo. Além da já esperada falta de precisão para as estimativas pela etapa inicial do projeto, ainda temos falhas nos estudos e análises.
Com informações limitadas, não é realista esperar precisão no Capex dessa fase. Isso é amplamente documentado (AACE 18R-97).
Uma frase clássica do Prof. Bent Flyvbjerg exemplifica bem esse efeito e vale para toda a fase de definição: “Projects don’t go wrong, they start wrong.” (ou Projetos não dão errado. Eles começam errado.)
A maturidade precisa ser comprovada em cada fase, não apenas no último gate antes da execução.
Com essa reflexão sobre o FEL 1, encerramos a primeira newsletter desta série.
Na próxima edição, vamos avançar para a Definição do Escopo – FEL 2.
📌 Nos comentários, me diga: qual foi o principal fator que mais distorceu o Capex na sua experiência ainda no início, ou fase de análise de viabilidade/FEL 1?
Se quiser aprofundar com frameworks e exemplos práticos, continuo essa discussão também no Grupo VIP do WhatsApp. Para entrar, é só clicar aqui.
Vamos juntos elevar a maturidade dos projetos.
Até a próxima News.



